Carta ao meu grande amor!
Hoje, o dia acordou com ventania, daquelas que tudo se escuta quando passa pelas frestas da janela, daquelas que mexe com tudo o que não está preso e sai do lugar causando bagunça que por hora havia sido arrumada há pouco.
Enquanto o mundo inteiro descansa, corre, tropeça, escorrega, pisa na lama ou segue em movimento, me dei conta que a ventania lá fora era somente um sopro suave e sutil diante da ventania que ocorria em minha cabeça, que, como o mundo inteiro, segue em movimento.
Percebi também que a ventania era uma nuvem cinzenta, daquelas que sopra no mundo inteiro e faz vento.
Serei eu uma jagada em movimento escrava do vento? Ou livre pelo vento?
Quando colocastes na mesa os pratos limpos, colocastes também um espelho, bem diante dos meus olhos e minha cabeça seguiu em movimento como jangada ao vento.
Meu agora magro dorso curvado sobre a cama, no escuro, esconde meus olhos vermelhos e úmidos perto daquele travesseiro acolhedor de meus pensamentos.
Com o mesmo olhar vermelho e úmido, vi o que querias me mostrar com aquele espelho refletido em palavras certeiras.
Por meio do espelho, falastes que sou marcada pela vida. Talvez essas palavras marcaram-me mais que a própria vida.
Pensei: aos 30 eu não era marcada pela vida. Ou era? Não, não era dessa forma. Refleti: Pra que serve a vida? Não seria pra deixar marcas? Marcas do tempo, marcas no rosto, marcas nos produtos, marcas registradas, marcas das lembranças?
Devo sentir-me culpada pelas marcas que recebi da minha vida? Isso é um problema? Isso não trouxe nada de aprendizagem ou maturidade?
Me percebi, por uns instantes, como algo alguém ruim por conter marcas da vida. Me senti numa inquisição, culpada, indo ao fogo do inferno por possuir marcas da vida.
- Você é marcada pela vida!!!! Isso ressoa na ventania de meus pensamentos.
Mas, o mundo inteiro não tem marcas da vida? O tomate vermelho escuro apodrecido pelo tempo, a borboleta que voa pela primeira vez,a espiga do milho cozido, a terra arada para o plantio, o presente que vira antigo e do passado, a mulher que dá a luz, o pai que entra em conflito com o filho adolescente, os traumas que se carrega quando não se tem a beleza padronizada, o medo da rejeição de uma mulher, a separação dos pais, as dificuldades de um dia de trabalho, a morte de alguém, o crescimento de uma muda plantada, a rua asfaltada, o sol que registra o biquíni pequeno no corpo bronzeado, o amor verdadeiro, o relacionamento que não deu certo, a paz procurada, o abraço quente e cheiroso dos filhos, a primeira palavra daquele que saiu lá de dentro, o primeiro passo daquele ser que precisou de ajuda para se locomover...
Devo sentir-me mal por ser marcada pela vida? Nós não somos como o mundo inteiro?
Certa vez ouvi que o flamenco bem dançado era aquele bem expressado, aquele que carrega lá de dentro as marcas da vida para o externo e que isso, sim, era o flamenco... O flamenco se sente quando tocamos, dançamos, ouvimos, vemos... Sempre desejei ter marcas da vida para bem bailar! As marcas podem ser boas ou não, não é?
Amanheci em silêncio com a mente clara como lâmpada, embaralhada pela ventania. Era um silêncio conturbado. Sem dúvidas, o mensageiro do vento trouxe-me a necessidade de me fazer ser melhor que sou. Meu coração tem caminhado em estradas marcadas por sapatos de saltos pontiagudos que trouxeram lágrimas derramadas.
De colo em colo, segue o bebe. Ao meu respeito, apenas quero desculpar-me pelas minhas marcas, pois, por um instante, pensei que apenas eu fosse dona marcas vitais. O mundo inteiro está aqui dentro e em todo lugar, em volta do que somos. Não escolhi algumas marcas, mas escolho ter muitas delas. Escolho ser melhor com elas, por causa delas. Escolho te amar, mesmo com as marcas que aqui estão.
A ventania acalmou, as marcas continuam. Quando minha voz puder tocar tua alma, verás que todos trazermos marcas e isso não é desmerecedor...isso é simplesmente fabuloso! Tenho marcas sim...da felicidade de ter meus filhos, da importância invisível do meu trabalho, das lições que a vida me troxe, da saúde que me permite viver, correr, caminhar, da cabeça que me permite aprender( apesar da dificuldade no inglês), dos tombos de bicicleta que me fizeram chorar e hoje sorrir da infância livre e pura marcada pela felicidade... Tenho marcas aqui dentro que me permite procurar um amor puro, talvez não aqui, mas acho que ele existe em alguma atmosfera. Tenho a marca da vida que me fez acreditar nas revoluções e, talvez, num mundo melhor. Me orgulho de minhas marcas, pois com ela, procuro PAZ!!!!!!!!!!!!!!